Mostra celebra os 17 anos do Bolinho investigando como um personagem passou a habitar a memória de Belo Horizonte, a partir de 12 de agosto
Durante 17 anos, ele apareceu em muros, fachadas, viadutos e esquinas de Belo Horizonte. Mudou de roupa, acompanhou acontecimentos da cidade, entrou em festas, virou fantasia, ganhou novas cores e expressões. Sempre diferente, mas imediatamente reconhecível. É dessa familiaridade construída ao longo do tempo que nasce “Habitante – Registros de um Bolinho pela Cidade”, exposição da artista Raquel Bolinho que será inaugurada no dia 12 de agosto, na PQNA Galeria Pedro Moraleida, no Palácio das Artes. A visitação acontece até 13 de setembro, com entrada gratuita. Este projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e conta com patrocínio da Bs2.
A mostra parte de uma pergunta: como uma imagem deixa de ser apenas um desenho e passa a fazer parte da memória de uma cidade? A resposta aparece ao longo de cinco ambientes, onde o Bolinho surge inteiro, fragmentado, multiplicado ou apenas sugerido. São pinturas, esculturas, instalações e trabalhos interativos que investigam o reconhecimento visual construído pela repetição.
“Fiquei pensando no que tornou o Bolinho um ícone. Acho que foi essa repetição constante durante 17 anos. A pessoa o vê numa sacola de supermercado, depois encontra outro na rua, mais um em um muro… Essa construção da imagem repetida fez ele se tornar o que ele é hoje”, explica Raquel. A artista conta que essa percepção surgiu aos poucos. Em determinado momento, percebeu que as pessoas já não precisavam ver o personagem inteiro para identificá-lo. “Há muitos anos fiz um Bolinho de costas, aparecia só a bundinha, e todo mundo entendia que era ele. Foi aí que comecei a pensar como a imagem dele ficou forte. Às vezes basta uma parte para as pessoas completarem o restante”, completa.
Essa ideia orienta toda a exposição. Em alguns momentos, o visitante encontra o personagem completo. Em outros, apenas uma cereja, uma silhueta ou um conjunto de cores são suficientes para acionar a lembrança.
Cinco salas, cinco maneiras de encontrar o Bolinho
Logo na entrada, três pinturas apresentam um Bolinho pouco conhecido do público. Sem o contorno preto característico dos grafites espalhados pela cidade, o personagem ganha volume por meio de luz e sombra. Ao lado das telas, três esculturas em cerâmica produzidas pela artista Marlouce Temponi oferecem uma interpretação própria do personagem.
“É um Bolinho muito diferente do que eu faço na rua. Ele não tem contorno, tem luz e sombra. E as cerâmicas mostram outra forma de enxergá-lo”, conta Raquel.
A segunda sala é tomada por aproximadamente 200 pequenas telas. Nenhuma delas repete a outra. Há Bolinhos músicos, esportistas, monstros, robôs, cozinheiros e dezenas de outras versões imaginadas pela artista. Espelhos instalados ao redor do ambiente multiplicam visualmente a instalação, criando aquilo que Raquel chama de “multiverso” do personagem.
“Todo mundo pergunta se eu já fiz um Bolinho mecânico, um Bolinho tocando guitarra… Então pensei numa sala onde existisse um Bolinho para qualquer coisa. No muro ele precisa ser entendido muito rápido, porque a pessoa passa de carro. Na galeria posso explorar outras formas”, explica a artista.
Na terceira sala, o personagem praticamente desaparece. Chapas transparentes de acrílico representam apenas elementos como a cereja, a cobertura e partes do rosto. A iluminação atravessa essas peças e projeta sombras coloridas sobre as paredes, deixando que a memória complete a figura.
O percurso continua em um espaço dedicado à interação. Um dos trabalhos funciona como um falso jogo da memória. As peças nunca formam pares. Em vez disso, revelam objetos inspirados no universo do personagem — um guarda-chuva, um tênis, uma chaleira, um relógio — sempre reinterpretados como Bolinho. Em outra obra, o visitante gira módulos que reúnem diferentes partes do corpo do personagem. As combinações nunca se encaixam perfeitamente e o objetivo deixa de ser montar um Bolinho “correto” para experimentar novas composições.
A última sala começa praticamente vazia. Ao entrar, cada visitante recebe pequenas cerejas adesivas para colar onde desejar. Aos poucos, as paredes vão sendo cobertas coletivamente, transformando um único detalhe do personagem em uma grande instalação construída pelo próprio público. “A cereja já simboliza o Bolinho. Mesmo sem ele inteiro, você reconhece quem ele é”, comenta.
Raquel explica que, assim como acontece com os grafites espalhados pela cidade, a intenção não é provocar grandes reflexões, mas criar um breve desvio na rotina. “O Bolinho sempre teve essa vontade de colocar a pessoa num mundo diferente do cotidiano. De fazer ela esquecer um pouco dos problemas, nem que seja por alguns segundos”, finaliza.
O título da exposição também nasce dessa relação construída entre personagem e cidade. “Habitar é mais do que estar num lugar. É participar dele, criar uma relação com esse espaço. Acho que o Bolinho conseguiu fazer isso. Mesmo sendo um desenho num muro, ele passou a fazer parte da cidade”, reflete Raquel.
Criado em 2009 por Maria Raquel Alves Couto, conhecida como Raquel Bolinho, o personagem nasceu quando a artista começou a experimentar o grafite nas ruas de Belo Horizonte. Inspirado inicialmente no formato de um cupcake, o desenho ganhou novas expressões, passou a comentar acontecimentos do cotidiano e, ao longo dos anos, espalhou-se por milhares de muros da capital e de outras cidades brasileiras, além de países como Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Argentina e Holanda. Hoje, tornou-se uma das imagens mais reconhecidas da paisagem urbana belo-horizontina.
A exposição marca ainda a doação de uma obra ao acervo da Fundação Clóvis Salgado. No dia 15 de agosto, haverá uma programação especial com discotecagem de Raphael Bravin e pintura ao vivo realizada por Raquel Bolinho e Kdu dos Anjos.
“Habitante – Registro de um bolinho pela cidade” é realizada pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Clóvis Salgado. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e do Instituto AngloGold, Patrocínio Plus da Vivo e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. A ação é viabilizada por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e pela Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Exposição “Habitante – Registros de um bolinho pela cidade”
Visitação: 12 de agosto a 13 de setembro
Horários de visitação: Terça-feira a sábado, de 9h30 às 21h; domingo de 17h às 21h
Local: PQNA Galeria Pedro Moraleida – Palácio das Artes
(Av. Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificação Indicativa: Livre
Entrada gratuita, sem necessidade de retirada prévia de ingressos
